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No dia 16 de julho de 2017 a BBC fez um anúncio revolucionário. Pela primeira vez em 54 anos o personagem do Doctor, protagonista da série, patrimônio imaterial britânico, “Doctor Who” (1963 – atualmente), será interpretado por uma mulher. Jodie Whittaker assume o papel ainda esse ano no especial de natal. Qual não foi a minha surpresa quando minutos após o anúncio da moça comecei a ver tweets pedindo para as pessoas não destilarem ódio contra ela ou contra a série. Felizmente minha bolha me protegeu da maioria das agressões digitais que uma decisão a tanto prenunciada estava causando. Mas horas depois não tinha como negar, a mudança de gênero do Doctor tinha desencadeado uma torrente de chorume. Falo chorume, sim. Pois não eram críticas baseadas numa falta de talento da nova atriz, ou mesmo críticas respeitosas. Parecia que o simples fato do Doctor deixar de ter um pinto transformava a série em algo menor e risível, parecia que por ser mulher, Jodie automaticamente ia destruir todo o legado pop que teve início lá em 1963 com Sydney Newman.

Mas essa gente deve esquecer que mesmo nesse início havia outro nome por trás desse universo hoje adorado pelo mundo.Verity Lambert enfrentou muita gente para que a história do alien que viajava no tempo e espaço fosse ao ar. No início dos anos 60, onde uma mulher no comando era ainda mais alienígena que um Time Lord, Lambert desafiou produtores e até o próprio Newman pela série que ela acreditava. Ousamos dizer que sem ela não haveria Doctor, Tardis ou Dalek algum para contar história.

Desde que se instaurou essa onda de ódio, outros fatos pró-mulheres na Tardis foram trazidos: Uma carta do Mr Newman propondo uma regeneração feminina ainda em 1980, um textinho do Colin Baker (Vulgo 7º Doctor) desejando sucesso ao seu sucessor ou sucessora… Além de fatos no cânone da série que deixam mais evidente que uma mudança de gênero do time lord sempre foi uma possibilidade. Mas jura que o Homo Sapiens (é o que dizem…) realmente precisa de tanta justificativa para aceitar que independente do que existe entre suas pernas um personagem só depende de talento para ser bom?

Lembro daquela campanha anti Caça-Fantasmas onde um monte de marmanjos vieram dizer que personagens que usam calcinha e caçam monstros verdes iam estragar suas infâncias. Aos queridos do argumento “estragou minha infância” uma dica: isso não é sobre vocês. Ninguém se importa se você, nos seus trinta e poucos anos, não se vê mais representado no reboot de uma série que você assistia quando era criança. A infância com a qual estamos preocupados é a de hoje. É com as meninas que vão crescer sabendo que podem acabar com fantasmas ou viajar no tempo que estamos preocupados. É com os meninos que vão crescer entendendo que meninas são tão capazes quanto eles de fazer qualquer coisa que estamos preocupados. Cultura pop é um troço vivo e pulsante. É preciso ter os olhos abertos e tentar sempre corrigir erros que por acaso (Ou não tão acaso assim) tenham sidos cometidos no passado. E um fã de Doctor Who devia ser o primeiro a levantar essa bandeira.

Há 54 anos, um homem louco com uma caixa azul nos fala sobre mudança, respeito e igualdade. Há 54 anos assistimos a série questionar injustiças sociais como o racismo, o capitalismo desenfreado e as intolerâncias culturais. Há 54 anos vemos um produto de cultura pop se preocupar com nuances muito mais complexas que ficção pelo puro entretenimento. Não entendo porque, depois de tudo isso, ainda existem pessoas agredindo uma mudança pelo simples fato dela ser diferente…

Saí daquela sessão de “Caça-Fantasmas” com os olhos cheios de lágrimas, chorei quando a Mulher Maravilha enfrenta o exército alemão sozinha e foi assim também que recebi a notícia que a Jodie seria a primeira Doctor. Não por achar que o que veio antes era menor, mas porque finalmente a pequena eu podia se ver em seus heróis. Porque quando uma menina meio estranha e apaixonada por ficção, como eu era, deitar para dormir, ela vai poder sonhar que é heroína, estudiosa do paranormal ou Time Lady, além de uma bruxa brilhante ou a vocalista de uma banda de rock.

Ingrid Xavier
Ingrid Xavier
Tem 8 ou 63 anos e precisa de séries para viver. Parece que também gosta muito de cinema, porque terminou uma graduação todinha em cinema e audiovisual. Mas teria terminado uma em música popular, se tivesse achado essa graduação. Chata por natureza. Não é nada pessoal.

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