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A Filha do Advogado

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A cidade do Recife sempre foi marcada por uma forte ação cinematográfica que vai desde as reuniões dos pequenos cineclubes, às grandes produções fílmicas de destaque internacional. Uma obra que marcou os primórdios dessa cultura cinematográfica recifense foi o longa “A Filha do Advogado” (Dir.: Jota Soares, 1926), pertencente ao chamado Ciclo do Recife.

O filme mudo produzido por comerciantes, tem seu amadorismo disfarçado no entusiasmo e paixão desses pela sétima arte. A obra traz um Recife maquiado de modernidades, carros, bondes, casarões, roupas chiques, penteados no estilo norte-americano, a grandeza das pontes e belezas que não condizem exatamente com a realidade recifense da época, pelo menos não em sua maioria. Tudo é mostrado daquele jeito que é “para inglês ver”, uma característica que encontramos até hoje, se tomarmos por exemplo as luxuosas construções habitacionais feitas para uma parcela muito pequena da sociedade, que não chegam nem a ocupar todo esse espaço construído.

O roteiro de Ary Severo apresenta um enredo de folhetim, dramático e simples, composto por momentos descontraídos que nem sempre se encaixam na cena. Alguns desses momentos são de fato deliberadamente cômicos, outros tornaram-se engraçados devido ao envelhecimento da obra e suas diferenças de contextos temporais quando vista nos dias de hoje (tanto faz se você estiver lendo esse texto em 2019 ou 2119).

 

Imagem do filme “A Filha do Advogado

 

A fotografia pouco ousada e as atuações simplórias, bastante caricatas e teatrais, ainda nos remetem muito ao estilo do “teatro filmado”, com a maioria das cenas em um único plano exibindo uma encenação exagerada. Contudo ainda há uma quebra plano teatral através de alguns planos detalhes aqui e outros closes ali. Com um grande valor narrativo, a montagem acaba por ser o maior trunfo desse tesouro recifense. É ela quem dá dinamismo à trama, ditando o ritmo, preenchendo as lacunas com flashbacks mesmo que em muitos momentos entre em conflito com a trilha sonora. Esta por sua vez, é precária pela infeliz escolha do pianista de trabalhar apenas 2 movimentos musicais, o que a torna extremamente enfadonha, chegando a nos dar nervoso de tanta repetição.

“A Filha do Advogado” trata-se de uma obra que envelheceu bem apesar dos pesares, e que infelizmente ainda pode dialogar com a realidade machista vivida por muitas mulheres. No longa, nossa protagonista Heloísa é rodeada por homens que estão sempre a controlá-la e manipulá-la. O rumo de sua vida está sempre nas mãos de homens: do seu pai, Paulo, e seu irmão, Helvécio, ao juiz e o jardineiro, Gerôncio.

Todas as decisões que pautam suas escolhas apresentam sempre uma figura masculina por trás. O pai que a manda para a capital e define até mesmo seu corte de cabelo, seu irmão mulherengo que não a deixa em paz e manipula seus encontros, e até mesmo o jardineiro corrupto que vendido torna-se parcialmente responsável pelas tragédias que acontecem à Heloísa.

Quem menos exerce o papel de ‘macho alfa’ é seu pretendente Júlio, que nem seu posto de mocinho-herói consegue executar plenamente, visto que no final a decisão do destino de Heloísa encontra-se nas mãos de apenas três homens, o juíz, o jardineiro arrependido e seu advogado (não me venham reclamar de spoilers de um filme de 1926 e disponível completo no YouTube). O patriarcado característico da época é enaltecido no filme que mal apresenta personagens femininas, e as poucas que tem são sempre subordinadas.

Apesar das limitações técnicas e a atmosfera machista, é inegável dizer que o longa se destaca não apenas no contexto fílmico pernambucano, mas também nacional, principalmente no que diz respeito às produções do cinema mudo brasileiro.

A obra de aproximadamente uma hora e trinta minutos, está disponível no site da Cinemateca Pernambucana. E você pode acessá-la aqui.

 

NOTA: 5,0 / 5,0

Carolina Villa
Carolina Villa
Apaixonada pelo Homem-Aranha e tudo que o envolva. Mas ama mesmo assistir filmes e séries de ficção científica das antigas repletos de efeitos toscos. Quanto mais trash melhor! Graduada em Cinema e Audiovisual na UFPE, e Publicidade e Propaganda na FBV (PE), vive em um poliamor com essas duas áreas.

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