A Mula: o drama existencial de Clint Eastwood

Documentário recifense retrata dificuldade das mulheres na indústria de games local
8 de fevereiro de 2019
Minha Fama de Mau: a novela-romanceada de Erasmo Carlos
14 de fevereiro de 2019
rx online

É inegável que Clint Eastwood é um dos veteranos mais inquietos e ativos de Hollywood, e suas obras geralmente são cercadas por particularidades. Dessa vez, e obrigada Deuses do cinema por isso, Clint não só dirige, mas também volta a atuar na adaptação de uma reportagem do New York Times sobre ex-combatente da Segunda Guerra Mundial apaixonado por flores e plantas que trabalhou para narcotraficantes durante quase 10 anos. Contudo, “A Mula” (Dir.: Clint Eastwood, 2019) não é apenas sobre contravenções.

No longa, o arquétipo de velho rabugento e de humor seco já bem estabelecido por Clint está de volta, mas agora misturado a uma fragilidade física de seus quase 90 anos que o diretor faz questão de ressaltar em tela. Há pouca novidade até aqui, já que o diretor refletiu diversas vezes sobre conflitos de gerações, e essa eterna dicotomia do velho X novo em obras como “Menina de Ouro” (2004) e os “Imperdoáveis”(1992). Contudo, Eastwood articula ainda melhor e com bastante honestidade as doses emocionais sem cair na pieguice ou em fatalismos, e conduz seu roadmovie não só EUA adentro, mas também por um caminhos internos cheios de camadas.

Clint em “A Mula”

Conhecemos um velho branco, acima de qualquer suspeita, sem antecedentes criminais, solícito com negros e lésbicas e que culpa a internet pela falência do seu negócio, e que aos poucos vai se revelando um pai/marido ausente. Há duas linhas narrativas aqui, e Earl Stone (Eastwood) é retratado com uma ambivalência extremamente humana e perturbadora. De um lado, um homem egoísta, que dedica integralmente seu tempo ao trabalho e negligencia a família, e do outro, faz autocríticas, doa dinheiro para reconstruir ong e lamenta o tempo perdido que não dedicou à família.

O tempo é o elemento mais importante dessa narrativa, seja ele o perdido ou que precisa ser recuperado. Earl tem uma consciência única e cortante sobre distanciamento, não-pertencimento, ausência e sobre a impossibilidade de mudar o passado. É pesado o arrependimento do personagem em não ter sido o que esperavam dele, e mesmo depois de décadas de descuido familiar, ele agora um nonagenário, encontra na neta a chance de se redimir. É revigorante.

O elenco de apoio, que conta com atores renomados como Bradley Cooper, Laurence Fishburne, Andy Garcia e Dianne Wiest, mesmo pouco acionado, já que Clint preenche todos os espaços da tela com um vigor impressionante, enriquecem o enredo e adicionam mais drama ao competente longa, recheando ainda mais o discurso estabelecido por Clint Eastwood enquanto personagem e diretor.  

 

Ah, já ía esquecendo que “A Mula” ainda tem espaço para elementos de filme policial, mas que a tensão necessária ao gênero é sufocada pelo discurso sobre afeto, culpa e responsabilidade. Uma obra pesada, sensível e que me fez refletir por horas. Não esperava por isso.     

 

NOTA: 3,5 / 5,0

Nathalie Alves
Nathalie Alves
Cinéfila, nerd e feminista irremediável. Ama games, HQs, comida, RPG, boardgames, podcast, literatura, música, séries...não necessariamente nessa ordem. Estudou letras e cinema na UFPE, e administração no IFPE, desenvolvendo diversas pesquisas e projetos de extensão sobre a representação e a representatividade da mulher na cultura pop. Assiste em média 15 filmes por semana, crê piamente em vida extraterrestre e que a Cate Blanchett e a Léa Seydoux com cabelo azul são a personificação da beleza.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

T.J. Hockenson Jersey