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“Deixa ela Entrar” (Dir.: Tomas Alfredson, 2008)

rx online

“O amor é filme. Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca dá quando a gente ama”

O Cordel do Fogo Encantado não sabia a verdade amarga que estava cantando com esse verso. Muito bonito isso de pipoca, refrigerante e pastilha de menta. Mas nem todo cinema é Hollywood, e quem já amou sabe que nem tudo é Marilyn sobre dutos de metrô. Há quem diga que isso de amor é só um mal necessário. Há quem diga que amor é uma pequena vampira conversando em código morse com o menininho que acabou de resgatar das garras do bullying.

Esse ano “Deixa ela Entrar” (Dir.: Tomas Alfredson, 2008) faz 10 anos sem sair das listas de melhores filmes de horror, desde o seu lançamento. Teve adaptação americana, adaptação para o teatro, quase teve uma série… O longa de Tomas Alfredson (só nos responsabilizamos por esse filme do moço) é inspirado no livro Homônimo de John Ajvide Lindqvist, contudo, neste texto vou falar e teorizar somente em cima das interpretações contidas no longa. Essas noções me assombram desde a primeira vez que vi o longa, nos idos de 2008, e pelo jeito assombra muita gente. Pelo reddit e em sites sobre audiovisual chovem leituras das mais diversas sobre o significado de cicatrizes e origem de personagens. E essas coisas são muito legais, mas já já a gente chega nelas.

Vamos começar falando disso de amor. Lemos muito por aí gente chamando a Eli de vilã. O argumento é que ela vai usar o Oskar como antes havia usado o Håkan. “Que bruxa essa menina de centenas de anos. Ela tá só querendo alguém pra cuidar dela lá lá lá”. Outras pessoas falavam como Oskar era um assassino em potencial e se agarrou a chance de um aval para matar. A minha teoria radical e ousada (rs) é de que ambas as ideias estão certas. Pam! É uma ideia radical que o amor aqui é justamente o encontro de necessidades. Eli precisava de alguém para cuidar dela e isso não faz dela vilã. Oskar precisava extravasar o desejo de violência dele e isso não faz dele um vilão… Bem, er… não nesse contexto.

Lina Leandersson e Kåre Hedebrantem “Deixa Ela Entrar” (2008)

 

É uma leitura fria, crua, muito realista? Certamente. Assim como a ideia de vampiro no universo do longa. O fantástico não existe adjacente ao ordinário. Ele existe junto. Eles interferem um no outro, tudo é meio cinza e marrom e ninguém brilha. Eli até fede. Ela fica feia, Oskar é fraco, cheio de doencinhas de cabeça. Quase como… pessoas reais. E isso não faz o amor menos amor. Oskar ama Eli mesmo que ela não seja uma menina. Aquela cicatriz faz a gente crer que quando a garota fala isso ela não se refere a ser uma menina muito velha. A vampira é certamente um menino, castrado a muito tempo atrás e isso não muda o sentimento.

Mas Håkan? O filme não conta da origem do homem que chega acompanhando a menina, mas dá indícios de que ele teve uma história parecida com a de Oskar (sim… eu sei que no livro ele tem outra origem…). Dá pra ver o ciúmes quando percebe a aproximação das crianças. Mais uma vez vou vir aqui defender minha vampirinha. Relacionamentos acabam, e talvez estejam todos mesmo fadados a acabar. Mas ambos cumpriram suas promessas até o fim e a jornada terminou da forma mais generosa para ambos.

Vejam bem, não vim aqui falar como é meigo esse filme, nem vim fazer propaganda de amor master realista. Vim só falar que se olharmos para além de Hollywood, para além dos idealismos e dos maniqueísmos, é ainda possível falar de amor, sem vilões, sem obrigação de perfeições, sem mocinhas lânguidas e indefesas.

 

Ingrid Xavier
Ingrid Xavier
Tem 8 ou 63 anos e precisa de séries para viver. Parece que também gosta muito de cinema, porque terminou uma graduação todinha em cinema e audiovisual. Mas teria terminado uma em música popular, se tivesse achado essa graduação. Chata por natureza. Não é nada pessoal.

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