“Anne With An E”, melancolia e encanto (1ª Temporada)

O Filme da Minha Vida
26 de abril de 2018
Dear White People (1ª Temporada)
26 de agosto de 2018

Anne

rx online

A série baseada no livro “Anne of Green Gables”, de L.M. Montgomery, conta a história da órfã Anne Shirley e levanta temas importantes e atuais como adoção, feminismo, bullying e o conceito de família de modo natural e leve, tal qual a insistência infantil em entender e contestar assuntos difíceis para adultos.

Quando Anne é adotada por engano pelos irmãos Cuthbert, Marilla e Matthew, que buscavam um garoto para ajudar na fazenda, sua reação feroz evoca uma coragem e indignação vindas não apenas da tristeza de ser rejeitada novamente, mas de resposta a injustiçada suposição de que garotas não podem fazer o mesmo que um garoto.

Anne é cheia de imaginação, curiosidade e sensibilidade. O modo como sua persona está deslocada em meio a sociedade do final do século 19 oscila entre momentos fantasiosos, e engraçados, e se contrapõem a carência e incerteza da personagem órfã e esperançosa. Uma melancolia que aperta com fortes dedos nossa garganta. Olhar abaixo da superfície das histórias mirabolantes, e cheias de brilho de faz de conta, nos dá uma sensível visão de abandono, sofrimento e tensão pela infância quase roubada.

A série dá voz a uma menina e permite que os complexos sentimentos entre a infância e a juventude, do sofrimento ao relembrar o passado até os momentos de pura alegria, sejam extravasados. A vida e as cores dão um ar encantado ao mundo de Anne e em suas relações com os outros personagens, mesmo que quase todos ao seu redor tentem extinguir a chama de sua criatividade e singularidade poética.

Anne e Marilla

O protagonismo feminino é retratado com força e a ambientação do período é marcado pelos questionamentos sobre o papel da mulher. Enquanto um grupo de mulheres debate o futuro de suas filhas, dizendo ‘não serão apenas esposas e donas de casa, terão voz’, mas continua refletindo a pressão da sociedade na distinção de classes e direitos, temos uma Anne, que mesmo inocentemente, questiona o casamento e não teme comentar sobre assuntos que incomodam.

Podemos ver esse amadurecimento na pele de Marilla, uma das figuras mais fortes da série e referência para a menina. Com uma voz e força ativas, crescentes na narrativa, a mulher vai de impermeável dureza a afetuosa cuidadora. É sua a decisão de educar Anne de modo a não impor a obrigação de ser esposa, mas ceder espaço para que a garota escolha seu próprio caminho e explore seu potencial.

O desenvolvimento dos laços entre os personagens é delicado e gradativo, principalmente nas relações familiares. Não há pressa em tornar três pessoas tão diferentes em uma família. O tempo e as peculiaridades são respeitados e valorizados através de lealdade, admiração e aceitação.

A fala incessante de Anne, quase uma defesa contra sua própria história. Os mistérios na expressão do olhar da menina, que parece esconder os maiores pesos que um ser humano pode aguentar, mesmo no pouco tempo de vida, mas que não abandonam a pureza e a esperança nata da criança. Falar e imaginar leva a menina para longe de suas dores e cicatrizes, para longe da realidade, e carrega o espectador numa jornada entre dores e felicidade. Um modo de sobreviver em um mundo bruto e complexo que é a própria Anne.

Com uma narrativa atraente, uma produção rica e fotografia bela, de planos que parecem saídos de um sonho perfeito, “Anne with an E” é dessas séries que precisam ser vistas com o coração aberto. Além de um desenvolvimento leve e divertido, mesmo com seriedade dos temas tratados, Anne nos faz torcer por uma Green Gables cheia de esperança e histórias lindas, prontas para uma jornada instigante, livre e repleta de imaginação.

 

NOTA: 3,5 / 5,0

 

Vitória Victor
Vitória Victor
Não sabe escrever sobre ela mesma, mas adora fazer e falar sobre animação. Estudou cinema e computação gráfica, mas podia ter estudado também veterinária. Cresceu assistindo a Disney, mas não virou princesa, prefere ser uma guerreira ou até a protagonista de um filme de Miyazaki. Dizem que se vira nas produções culturais, nas críticas, nas artes, no audiovisual e até na marcenaria. Com o espírito de uma digiescolhida, está sempre disposta a aprender e topa qualquer desafio.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

T.J. Hockenson Jersey