Entrevista Gabriela Amaral Almeida “A Sombra do Pai”

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"A Sombra do Pai" (2019)

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“A sombra do Pai” (2019) é o segundo longa da diretora Gabriela Amaral Almeida. Como uma das vozes mais relevantes do novo cinema de gênero no Brasil, é claro que a moça é uma das nossas queridinhas. Conversamos com ela sobre seu novo trabalho, mas não deu para evitar, e a conversa foi parar no futuro, no terror de mulher… essas coisas.

Logo de cara Gabriela nos contou que muito de Dalva, protagonista e criança estranha fascinada por filmes de terror, vem dos sentimentos infantis da diretora. De uma melancolia e solidão de ser criança. Veja, essa que vos escreve não poderia se sentir mais representada, e a pequena eu, fã de Zé do Caixão, vibrou ao encontrar uma igual.  Outro assunto que nos é muito sensível é essa nova emergência de vozes femininas no gênero.

Cena de “A Sombra do Pai”

Escrocríticas: Quando eu penso em cinema de gênero nacional contemporâneo três nomes me vêm à cabeça: o teu, o da Juliana Rojas e o da Anita Rocha da Silveira. Você acha que tem um motivo para essa dominância feminina?

 

Gabriela Amaral Almeida:  O feminino tinha que acontecer em algum momento. Porque por causa dos eventos recentes, não só no Brasil como no mundo, onde a mulher ela tá brigando por esse crédito, ela tá brigando por uma voz e pela sensibilidade que ela tem. Como a do homem, somos seres humanos. Então descartar o feminino da narrativa de horror no cinema é algo que eu acho que tem mais a ver com o capitalismo e monetização de tudo, e de fácil hierarquias do que com talento. Aí você cita nosso nome, né? São duas autoras brasileiras que eu muito admiro, que eu vejo determinadas a ir até o fim nesse gênero que elas acreditam. Então não é de hoje que eu, a Anita ou a Juliana dirigimos. Tem muito tempo que isso tá acontecendo, e eu fico muito feliz de fazer parte desse grupo, de tá incluída nesse grupo de mulheres tão talentosas. Faço votos que a gente esteja abrindo alas para que a direção da mulher nesse mundo não seja só um nicho, para que seja uma coisa tão comum… para que a mulher possa exercer essa função de uma forma tão comum, tão corriqueira, tão simples como um homem.

 

E: Sobre o som, teve alguma escolha que norteou o som ao longo do filme inteiro? Existiu um conceito que atravessou desde a ideia inicial até a pós-produção?

 

GAA: O Daniel Turini que é meu parceiro em todos os curtas, com exceção do primeiro e no longa, ele é um artista muito intuitivo, muito participativo. É um artista que eu considero completo porque tem o domínio técnico do que faz e tem uma capacidade criativa de complementação dramatúrgica com o som que é muito especial. Então eu me lembro de com ele nas diversas conversas que tivemos de trabalhar os sons mais ásperos e mais incômodos possíveis que a gente pudesse imaginar para tornar o ambiente de trabalho um lugar não de acolhimento, sempre de incômodo, áspero mesmo, e trabalhar tudo ao redor da Dalva de forma mais orgânica. Então é com a Dalva que a gente ouve cachorro latindo, passarinho, vento, junto com o barulho da cidade a gente ouve vida, e com o Jorge geralmente tá num silêncio, que é um silêncio impossível quase. Mas para o filme a narrativa é uma morte do som. A gente tá no meio dessa sinfonia quebrada industrial. Então eu acho que esse foi um dos conceitos base que nos levou ao longo do filme

 

Cena de “A Sombra do Pai”

 

E:Uma coisa que você disse é que não começou a filmar agora. Assistindo ao filme, ele me lembrou dois curtas teus “A mão que afaga”, naquele aniversário disfuncional e perturbador, e “Uma Primavera”, na construção da tensão do filme inteiro. Então, eu queria saber como que essa experiência com curta-metragem influenciou sua forma de contar histórias hoje.

 

GAA: Ah, muito importante porque quando a gente sai da escola de cinema, eu fiz Escola de Cinema de Cuba, eu acho que é através dos curtas-metragens, não por eles serem mais fáceis, mas por eles serem mais viáveis economicamente, que você começa a praticar. Você começa a experimentar coisas, a se experimentar como artista e como cineasta. Então o roteiro do Sombra do Pai ele surge paralelo a essas… a isso que eu chamo de pequenas explosões narrativas que são meus curtas. Então eles carregam alguma coisa de material desses curtas, e sem dúvida dirigir curta eu acho uma escola. Acho um formato difícil de gerar do ponto de vista artístico. É preciso uma consisão muito grande. É muito pouco tempo para você atingir um objetivo de uma forma clara. Então eu acho que fui muito feliz em ter, e quero voltar ao formato. Acho um formato interessantíssimo, é uma pena que o curta não seja comercializável. Muitos diretores dirigiram muitos curtas e só foram chamados de diretores quando dirigem “o primeiro filme!”, “o primeiro longa!” e já fizeram dez curtas… enfim. E o curta tem essas especificidades, mas infelizmente ele não integra a lógica capitalista de produção cinematográfica. Mas para mim ele foi um formato de escola mesmo.

E: E sendo de Recife, formada em Cinema, eu não poderia concordar mais com as tuas colocações.

 

GAA: Ai que bom! hahaha

 

E: Pô, já que tu falou de futuro, de abrir portas, eu me lembro de um papo contigo, com Juliana e outros realizadores no Janela Internacional de Cinema em que as falas foram muito otimistas quanto ao futuro do cinema de gênero no Brasil. Tu ainda pensa esse futuro tão otimista? Como é que tu vê isso?

 

GAA: É muito difícil dizer porque agora que a gente tá vivendo a ameaça, ainda não o desmonte, mas a ameaça do desmonte do que estava sendo uma geração inteira e outras gerações de cinema. Que são todos os programas públicos necessários e importantes para se desenvolver um mercado que não existe. Que não existia pelo menos. Então, a gente tem toda uma geração de cineastas que se desenvolveram, e eu acho que agora tá no auge da criatividade fazendo seus primeiros longas, que corre o risco de ser interrompido. De ter a voz interrompida por conta de querelas políticas.

Quanto ao futuro, o que eu tenho a te dizer é: é mais um paradoxo. Por que é isso: a gente vive numa sociedade capitalista, então tudo que o capitalismos toca ele tende a mercantilizar. Se o capitalismo fareja (como uma besta, né?), se ele fareja a possibilidade de mercado desse nicho de filme de horror, eu acho que há o risco da gente começar a gerar, sem nem ter consolidado uma gramática direito ainda, produtos que derivam mais do horror mais conhecido, que é o norte-americano, do que esse horror brasileiro propriamente dito. O que a gente tá chamando de horror brasileiro é esse horror que acontece na reinvenção dos próprios cânones, na adaptação dos cânones de horror norte-americanos à realidade brasileira. No próprio orçamento dos filmes, que são orçamentos baixos para filmes de medo, né? que a gente sempre contou com efeitos especiais. Enfim, tem tido uma gama de necessidades para construir um mundo crível. Mas essa entrada, essa oportunidade, vinha muito do cinema público, do dinheiro público no Brasil. Eu tive a fortuna e a alegria de conhecer um produtor que é o Rodrigo Teixeira, da RT Features, que conseguiu levantar o dinheiro para o “Animal Cordial” que foi o meu primeiro longa privado. Mas isso não é uma realidade. Isso é uma exceção. A gente tem que ter muito cuidado ao elevar as exceções à realidade. Porque como exceção se você prestar atenção ainda somos bem poucos. Ainda são pouquíssimos filmes, e essa onda, essa novidade pode passar assim como ela chegou. Então eu não sou tão otimista quanto ao futuro do cinema de gênero no Brasil. Eu acho que é um cinema muito rico, mas também muito particular. É um cinema que ainda tem uma gramática sendo testada no público, eu acredito. O público ainda vai assistir a um filme de terror esperando os cânones dos filmes mais conhecidos que é completamente natural, que é o norte-americano. Leva tempo para estabelecer um gênero e chamar o horror de brasileiro, chamar o horror de nacional, isso não é de uma hora pra outra. E tenho medo que a monetização desse tipo de filme dilua essa criatividade. Sabe? Traga exemplares e traga filmes absolutamente diluídos e mercantilizados. Essa é minha ponderação à alegria toda.

 

E: Quando tu fala de uma estética local, uma estética nacional, uma questão me salta aos olhos que é a relação com a cidade, com o trabalho e a classe operária. Ela tá bem presente em “Trabalhar Cansa” e tá bem presente em “A Sombra do Pai”. Eu queria saber se tu acha que o real pode ser lido como um dos grandes terrores da nossa vida, do nosso contemporâneo.

 

GAA: Do Brasil, né? Eu até amplio sua pergunta. Eu acho que toda narrativa contemporânea de alguma forma coloca a produção do personagem, o valor produtivo do corpo do personagem como questão central. Então é muito difícil você ver hoje em dia um personagem de narrativa contemporânea… só pra citar Jonathan Franzen que é um escritor norte-americano que eu gosto muito e todo drama dos personagens dele envolve dinheiro, envolve trabalho, envolve dilemas com trabalho, o trabalho dificulta a vida em família, dificulta a expressão individual dos personagens… então eu acho que é uma questão óbvia pra gente na narrativa de horror, mas eu acho que é um pouco inevitável questionar isso porque a gente tá num momento de crise do capitalismo, né? A gente tá numa hiper-produção de coisas inúteis, tamo vivendo o absurdo do consumo. Não tem mais o que consumir, o que almejar materialmente, que tudo existe. E quando tudo existe nada é relevante. Então eu acho que é levantar essa questão dramaticamente é importante. Não dá mais pra criar um personagem do qual a gente não sabe de onde vem a renda, sabe? Eu acho que como é uma questão massacrante hoje, eu acho que tá em todas as narrativas, não só a de horror.

“A Sombra do Pai” está em cartaz no Brasil e estamos torcendo que logo entre em cartaz também aqui em Recife.

 

Assista o trailer do filme

Redação Escrocríticas
Redação Escrocríticas
O Escrocríticas é uma página de críticas, artigos e notícias sobre cinema e séries. Nossa proposta é abordar de maneira descontraída o texto crítico, aproximando o público do nosso olhar analítico sobre o audiovisual.

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