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“Everything Sucks!” série da Netflix

rx online

Talvez esteja rolando até uma tietagem…faz um tempo que a netflix não disfarça mais o algoritmo que motiva a produção de suas séries. Seriado de crime faz sucesso faz uns 5, série de viagem no tempo aparece e de repente te recomendam mais 3 novas, série saudosista dos anos 80 vira hit e o quê? Toma uma série de saudosismo anos 90.

Bem, a geração Y está crescendo e começando a repetir que “no meu tempo é que era bom” e  a indústria cultural tá sabendo bem ganhar dinheiro com esse sentimento. Claro que eu não ia cair nessa. Er… A questão é que caí.

Na primeira sequência do primeiro episódio de “Everything Sucks!” (2018) a gente já está se sentindo manipulado. É uma necessidade de gritar que aquilo é os anos 90, que vai ainda se repetir ao longo da série mais do que devia. São tamagochis, gargantilhas adesivas, Beavis and Butchead…. ok ok, a gente já entendeu.  

Esse apelo ao saudosismo gratuito só diminui na segunda metade do seriado, dando lugar a sentimentos atemporais e universais. Mas a gente volta nisso depois, que ainda tem umas coisinhas pra reclamar.

Sério, cadê o resto da personalidade dos coadjuvantes? Os amigos do Luke são arquétipos recorrentes no gênero, o galã do Clube de Teatro não diz uma frase que pareça verdadeira, e não vamos nem falar dos personagens menores. Emaline, a rainha do tal clube de teatro é um exceção. A menina passa por um amadurecimento da sua noção de feminino e pertencimento que desencadeou um fandom inusitado lá no Tumblr, ao menos para essa que lhes escreve. Outros personagem que acrescentam vida ao algoritmo é o casal formado pelos pais dos protagonistas. Você pode até não estar muito interessado no romance de meia idade, mas a verdade das dores e delícias de Sherry e Ken é inegável.

Mas são mesmo os protagonistas que nos comovem e carregam a maior parte da nossa identificação. Conhecemos primeiro Luke, calouro, querendo parecer descolado e falhando, como de costume. Mas também pudera, ele e os amigos acham que vão conseguir isso no Clube de Audiovisual? bobos. Porém é lá que ele conhece Kate, filha do diretor, fã de Tori Amos e bem, evidentemente lésbica. Mas isso nem ela sabe, e acompanha as descobertas de menina, misturado com as expectativas de Luke e uma relação que só duas crianças de 14 anos podiam achar que ia funcionar. É ao mesmo tempo apaixonante e sofrido. É aqui que a poção mágica da identificação + saudosismo acontece. Eu talvez tenha chorado e gargalhado ao mesmo tempo com o plano de sedução do menino ao som de “Wonderwall” do Oasis. A que ponto chegamos…

Kate é outro encanto. E o mérito do sucesso desses personagens vai também para o talento dos atores que os interpretam, Jahi Di’Allo e Peyton Kennedy. Kennedy passeia pelos planos e cenários com o evidentente incômodo de uma pessoa que ainda não sabe direito quem deve ser e aquela vontade de uma capa da invisibilidade que todo mundo já teve. Numa personagem que está passando por mais conflitos que nem a maioria dos adultos entende, a menina parece viver cada um dos dilemas e todos ao mesmo tempo. Isso não impede que ela encontre voz e atitude quando preciso.  

Certos momentos da personagem parecem muito ter sido escrito por alguém que sabe exatamente como é ser uma menina adolescente se descobrindo apaixonada pela colega mais velha e mais descolada. O desconforto de estar numa situação íntima com a menina que você gosta e não saber como se sentir ou reagir, mas adorar cada instante, o majestoso sentimento de pertencimento quando vemos um casal gay sendo fofos de boa pela primeira vez e a ousadia de trocar os posters do quarto por fotos de mulheres que você admira, foram situações que vivemos na pele e que a série parecia ter filmado, lá nos idos de 2007…

 

Sydney Sweeney e Peyton Kennedy em “Everything Sucks!” (2018)

 

A trilha é outro acerto da produção. Tá lá alguns óbvios, mas tão também as coisas que a gente tem vergonha de dizer que gostou ou as coisa lado B que seu tio doidão ouvia e ninguém entendia nada. A vontade de redescobrir a sonoridade daquela época compõe o sentimento da série. Junto com a textura da imagem granuladinha e de cores esmaecidas como num vídeo vhs, planos fechados como num programa de TV antigo, zoom ins e outs e cortes secos, os diretores realmente conseguiram deixar a gente com vontade de ter um tamagotchi e sair por aí ouvindo Blur no nosso walkman.  

Apesar de por vezes forçar uma marca do tempo, como Luke assistindo os diários do pai gravados em fita vhs, quando a série deixa o tempo aparecer como consequência da história, o resultado é verdadeiro e emocionante, vide os acontecimentos naquela blockbuster que guiam para um finale confuso, irritante e radiante, como costuma ser tudo quando se é adolescente. Somos deixados na iminência de tantas explosões que sofremos até hoje pela Netflix ter cancelado nosso bebê. Mas como a gente não tinha como extravasar tanto saudosismo, fizemos uma playlist com as músicas da nossa época. O único critério foi a memória afetiva, então não julga, e vem se emocionar com Sandy e Jr com a gente:

 

 

NOTA: 3,5 / 5,0

 

Ingrid Xavier
Ingrid Xavier
Tem 8 ou 63 anos e precisa de séries para viver. Parece que também gosta muito de cinema, porque terminou uma graduação todinha em cinema e audiovisual. Mas teria terminado uma em música popular, se tivesse achado essa graduação. Chata por natureza. Não é nada pessoal.

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