Filme de Terror é Coisa de Menina

O Insulto
20 de abril de 2018
O Filme da Minha Vida
26 de abril de 2018

"Mate-me Por Favor"(2015)

rx online

Quando se fala de cinema de horror não são os filmes brasileiros que primeiro vem à mente. Quando se fala de filme brasileiro de terror não são em nomes femininos que costumamos pensar. Mas daqui, desse nosso pedacinho de tempo, podemos comemorar que o cinema de horror brasileiro está crescendo e é cinema de mulher! Não só isso, é também diverso e ousado.

Anita Rocha da Silveira, Gabriela Amaral Almeida e Juliana Rojas são hoje os grandes nomes do gênero no país. Seus filmes “Mate-me Por Favor”(2015), “Animal Cordial”(2017) e “As Boas Maneiras”(2017), respectivamente, desenham esse cenário diverso, explorando vários subgêneros e trazendo temas como o vazio, o preconceito ou o desejo.

Mas se pararmos pra pensar, não é assim tão surpreendente que sejam as mulheres a fazerem filmes sobre medo e a iminência da morte. Vocês já tentaram ser mulher no Brasil de 2018? Um bando de homem branco engravatado acaba de assinar um documento que pode impedir o aborto até em caso de estupro, os números da violência doméstica se equiparam a guerras, meninas são estupradas diariamente e ainda há quem diga que a culpa é delas. Ser mulher é um eterno filme de terror que o cinema brasileiro agora está filmando.

Quando Anita Rocha da Silveira contou a história de Bia vivendo entre uma série de assassinatos de meninas na barra da tijuca, misturou cultura pop, religião, literatura brasileira e funk. O resultado é um filme que a princípio causa estranhamento nos olhares já catequizados por hollywood, mas se olharmos com mais atenção, muito do que é crescer hoje em dia tá lá, nos vazios das ruas e na mistura de medo e desejo. O filme extrapola a questão do gênero sobre ‘Quem é o assassino?’, e ao som de Claudinho e Bochecha é possível ver as mortes se espalharem. Mortes porque na obra de Anita se morre em muitos sentidos. E ela não está dizendo que isso é uma coisa ruim.

“O Animal Cordial” (2017)

 

A morte, por sinal, é veículo de libertação em “Animal Cordial”. O filme de Gabriela Amaral Almeida é um Slasher daqueles que lavam a alma , em sangue. Estão lá os elementos básicos do gênero: Um assassino, sadismo, sexualidade… Mas quando assistimos Luciana Paes em êxtase, coberta com o sangue fresco da vítima do assassino tresloucado, não é o prazer dele que está em cena. Numa bem vinda subversão vemos uma mulher descobrir seu poder. Não como uma princesa, mas reinando sobre a carnificina de pessoas que sempre a subjugaram.

 

“As Boas Maneiras”(2017)

 

Em “As Boas Maneiras”, mais uma vez temos a opressão como catalisador.  Juliana Rojas, junto com seu parceiro já habitual Marco Dutra, nos entrega um filme de monstro como a muito o cinema nacional não ousava fazer. A criatura tá lá, ocupando todo o quadro e não como uma metáfora intangível. Como em seu filme anterior “Sinfonia da Necrópole” (2014), o horror se mistura com números musicais e passeamos aqui do sertanejo universitário a canções meio Disney. Dos três longas aqui citados, esse talvez seja o mais estranho ao modelo norte americano. Além da mistura de gêneros, os efeitos não são exatamente primorosos, o longa é dividido em duas partes bem diferentes entre si e, o que mais espantou senhores de bem na sessão em que assisti: a protagonista é lésbica. É surpreendente que em 2018 ainda existam pessoas que preferem ver gente sendo esquartejada a ver duas pessoas do mesmo sexo se beijando. Se isso não é assustador, eu não sei mais o que é.

O cinema de gênero vem lentamente ganhando espaço na produção brasileira. E o que essas diretoras e roteiristas estão fazendo, chamam atenção de crítica e público, mas infelizmente parecem presos ao universo de festivais de cinema.  Num momento em que filme de terror volta a figurar em grandes festivais e prêmios mundiais, esperamos que o Brasil saiba olhar com respeito para o produto rico e subversivo que vem sendo criado no nosso quintal.

Ingrid Xavier
Ingrid Xavier
Tem 8 ou 63 anos e precisa de séries para viver. Parece que também gosta muito de cinema, porque terminou uma graduação todinha em cinema e audiovisual. Mas teria terminado uma em música popular, se tivesse achado essa graduação. Chata por natureza. Não é nada pessoal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

T.J. Hockenson Jersey