Green Book – Um Guia Para Lugar Nenhum

Você curte, segue e stalkeia
30 de janeiro de 2019
Neste fim de semana tem ‘BTS – Love Yourself Tour in Seoul’ na rede UCI
6 de fevereiro de 2019

Green Book

rx online

“Tudo que quando era preto era do demônio. E depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de Blues” canta Baco Exu do Blues na sua canção “Bluesman”. Se esse fosse o caso, poderíamos chamar o Dr Don Shirley de blues. Ou quase, pois como o personagem fala, ele é aceito e até amado enquanto está nos palcos, mas fora dele é só o “garoto” negro menosprezado pelos brancos que antes o aplaudiam.

“Green Book – O Guia” (2019) abre com um homem branco cantando “That Old Black Magic” um clássico do jazz que pode ser traduzido diretamente como “Aquela Velha Magia Negra”. A duplicidade de significados é proposital. Se brinca com a ideia de Magia Negra religiosa e com uma magia da mulher negra. A canção foi gravada por vários ícones negros do jazz (um ritmo também negro), mas foi a voz de Frank Sinatra e antes de Glenn Miller, dois caras brancos, que alcançou maior respeito e sucesso. É sintomático também que na legenda em português o “negro” da letra tenha sido omitido. É como o rapper baiano canta, se é negro é do demônio, mas se for embranquecido merece todas as láureas. Jesus que o diga.

Mas “Green Book” opta por não elaborar essa ideia. Na verdade o longa opta por não elaborar ideia nenhuma. É um conto raso e simplificado onde um cara branco ensina um cara negro a ser mais negro, enquanto esse cara negro e rico tenta ensinar um cara pobre a ser civilizado. E sim, eu sei que é baseado em fatos. Mas o que assistimos não são filmagens da viagem de Tony Vallelonga  e Shirley. Assistimos uma obra que escolheu esse ou aquele momento para retratar e que compôs diálogos para serem ditos pelos seus personagens. É difícil não sentir que a narrativa foi alienada em função de um discurso mais palatável.

 

Mahershala Ali, ao centro, em cena de “Green Book – O Guia”

Outro tema que não é desenvolvido pelo filme é a posição desses artistas negros  não militantes em pleno movimento pelos direitos civis nos EUA. Até hoje a opção desses é julgada por quem não estava lá. Não raro se fala em Nat King Cole (Citado no filme) e Louis Armstrong como covardes ou traidores. Porém o longa escolheu colocar na boca do colega de banda branco a explicação: “É que Dr Shirley pretende mudar os corações racistas com dignidade e elevação de espírito”. Olha, pode até ser, mas eu queria era saber disso por ele mesmo. Ser negro nos anos 60 (e até hoje) era cruel e isso o filme diz bem. Ninguém tinha obrigação de atiçar o ódio que já sofriam diariamente. Mas essa posição era sem dúvida uma zona cinza e complexa que aqui só fica parecendo que por ser rico e educado o personagem ignora e planeja uma viagem para estados racistas para aprender ou expiar pecados.

Falando em pecados, Tony estava mesmo ali para perdoar Dr. Shirley pelos dele, né? O pianista negro é descoberto gay. Mais humilhação, espancamento e mais uma oportunidade perdida para aprofundar essa narrativa. O paralelo entre o tal guia para o motorista negro e as atuais matérias e guias de viagem gay friendly é dolorosamente real. Ser gay e ir parar sem querer numa cidadezinha isolada e estatisticamente homofóbica é uma insônia que não desejo a ninguém.

Mas nem tudo no roteiro é desperdício. As sutis alfinetadas ao KFC e a Bobby Kennedy garantem aquele risinho de canto de boca de quem assiste um fora bem elaborado. E por mais repetitiva que a natureza do filme seja estrada-hotel-show-estrada-hotel-show… Conseguimos ver bem a mudança dos personagens e até aproveitar dessa familiaridade para torcer por uma ou outra resolução. A verdade é que parte dos problemas de “Green Book…” se esvaem quando aceitamos que não se trata de um filme sobre o artista negro e sim sobre seu motorista branco.

 

Mahershala Ali (Dir) em cena de “Green Book – O Guia”

 

 

Tal qual a canção de abertura, Frank Sinatra cantando Have Yourself a Merry Little Christmas é narrativo. É um italiano, da classe trabalhadora, assim como Tony, que ficou famoso cantando um gênero de negros e hoje é amado por ~todo tiozão de classe média pelo mundo~ por toda elite cultural mundo afora. Talvez seja essa tal elite empoada os que mais saem satisfeitos ao fim da projeção. Pinceladas em temas complexos, alta cultura, piada com a ignorância num formato meio pombo. O diretor, Peter Farrelly, vem de uma carreira de comédias pastelão (algumas que moram no nosso coração) e o que se sente é que ele foi chamado pelo estúdio por sua falta de voz autoral. Já o roteiro, escrito pelo filho do verdadeiro Tony, talvez sofra de excesso de proximidade com a história.

A viagem de Tony Vallelonga e Dr Don Shirley foi adaptada em um filme esquecível em sua falta de autonomia. Ficam algumas cenas e o gosto ruim de preconceitos velados. Talvez se um dia assistirmos a história do outro ponto de vista tudo faça sentido.

 

NOTA: 3,0 / 5,0

 

Ingrid Xavier
Ingrid Xavier
Tem 8 ou 63 anos e precisa de séries para viver. Parece que também gosta muito de cinema, porque terminou uma graduação todinha em cinema e audiovisual. Mas teria terminado uma em música popular, se tivesse achado essa graduação. Chata por natureza. Não é nada pessoal.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

T.J. Hockenson Jersey