Inversões de papéis de gênero e subtramas necessárias em A Nossa Espera

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“A Nossa Espera” (Dir.: Guillaume Senez, 2019)

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Em um primeiro olhar, “A Nossa Espera” (Dir.: Guillaume Senez, 2019) parece que vai se enveredar para uma narrativa mais focada na vida proletária fabril de seu protagonista, Olivier (Romain Duris), aos moldes de outras obras francesas como “O Valor de Um Homem”(2015) e “Dois Dias, Uma Noite”(2014). Na verdade, Olivier até carrega traços de humanidade, senso de coletividade e de consciência de classe que são muito caros aos demais filmes já citados, mas a trama toma decisões bem diferentes das esperadas, e entrega algo semelhante ao avesso de “Sem Amor” (2017), só que com mais qualidade.

No drama, Olivier faz o melhor que pode para combater as injustiças em seu trabalho. Mas de um dia para o outro, sua esposa Laura inesperadamente abandona a família, e ele se vê sozinho tendo que lidar com as necessidades de seus filhos pequenos, os desafios do cotidiano e as demandas de seu trabalho. Diante de novas responsabilidades, ele e os filhos lutam para encontrar o equilíbrio à espera de Laura.

O roteiro do diretor e da sua co-roteirista Raphaëlle Desplechin é onde encontra-se o grande poder dessa obra. Como já mencionado, o enfoque do longa, inicialmente, ensaiava uma denúncia das situações trabalhistas na França e do desgaste do trabalho extra de líderes sindicais, mas na verdade isso era o pano de fundo para um drama familiar repleto de camadas. Agora, Olivier precisa conciliar imediatamente os afazeres domésticos com o seu trabalho na fábrica, e a sutilidade com a falta de experiência do pai em lidar com as necessidades dos filhos é uma realidade inconveniente. Há um desalinho entre Olivier e os filhos, como o tipo de comida e roupa apropriada para determinada situação, que é remediado com a presença de duas figuras femininas: sua mãe e irmã.

 

Falta virtuosismo estético, mas sobra humanidade em A Nossa Espera.

 

A obra busca retratar esse distanciamento paterno e a falta de habilidade na criação dos filhos e de dotes domésticos, e é feliz nisso, contudo ao inserir sempre uma figura materna (mãe e irmã) compreensiva, que sabe lidar com crianças e cuidar da casa, enfraquece a tentativa dessa pequena desconstrução de padrões de gênero.

Todo o texto em si, talvez até sem intenção, acaba por romantizar o personagem Olivier. Seja pela não explicitação do real motivo pelo o que a sua esposa abandonou a casa, ou seja pelo homem de caráter inabalável, que nega até “um belo, um belíssimo aumento de salário”, para não ter que demitir seus semelhantes. E o universo diegético trata logo de recompensar esse homão da porra (que não faz nada que uma mulher com dupla ou tripla jornada já não faça), com ofertas de emprego, aumento de salários e a possibilidade de restartar a própria vida.

Se não fosse pela fotografia escura, a competente atuação de Romain Duris e a naturalidade do elenco infantil ficaria ainda mais evidente, mas isso não acaba comprometendo a experiência de assistir a um dos poucos filmes que trata do desprendimento de uma mulher em relação a sua família sem julgamentos morais. Efetivamente, essas críticas e a reprodução de estereótipos de motivações surgem naturalmente no público e em conversas entre os personagens, porém prontamente são dissolvidos. E ah, o final é uma das cenas mais marcantes de “A Nossa Espera”. Vale a pena esperar até o fim!

 

 

NOTA: 3,0 / 5,0

Nathalie Alves
Nathalie Alves
Cinéfila, nerd e feminista irremediável. Ama games, HQs, comida, RPG, boardgames, podcast, literatura, música, séries...não necessariamente nessa ordem. Estudou letras e cinema na UFPE, e administração no IFPE, desenvolvendo diversas pesquisas e projetos de extensão sobre a representação e a representatividade da mulher na cultura pop. Assiste em média 15 filmes por semana, crê piamente em vida extraterrestre e que a Cate Blanchett e a Léa Seydoux com cabelo azul são a personificação da beleza.

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