Minha Fama de Mau: a novela-romanceada de Erasmo Carlos

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Cinebiografias de músicos famosos, sobretudo as nacionais mais recentes, como “Elis – O filme” (2016) e “Tim Maia” (2014), carregam um retrospecto de higienizar e suavizar a imagem dos seus protagonistas, bem como o de muitos coadjuvantes, omitindo opiniões contrárias, deixando quase que subjetivo o abuso de drogas e álcool, e pintando o biografado como um bom filho, e fiel aos seus princípios. Então não ficamos surpresas quando vimos tudo isso em tela na adaptação homônima escrita pelo próprio Erasmo Carlos, “Minha Fama de Mau” (Dir.: Lui Farias, 2019).

O longa traz um retrato narrado pelo próprio Erasmo (Chay Suede), o que já é bastante questionável pois temos apenas um ponto de vista, apresentando as fases de sua vida entre a adolescência flertando com o rock ‘n’ roll até o fim da Jovem Guarda. E justamente por ser a adaptação de uma autobiografia, a direção opta pela quebra da quarta parede como recurso estilístico para criar uma dinâmica distinta para esse tipo de obra, mas que é inserida tão fora do timing, que não é bem aproveitada. Há dezenas de escolhas estéticas que não parecem dialogar uma com a outra, resultando em uma obra visualmente disforme e heterogênea ao misturar sem propósito, por exemplo, estética e linguagem de quadrinhos com a já mencionada quebra da quarta parede.   

Falta uma pitada de sal para no trio principal de Minha Fama de Mau

A escolha do elenco principal é no mínimo curiosa. Chay Suede que vem numa crescente em sua carreira direcionada para filmes menos comerciais, entrega uma performance caricata e sem muito esforço, mas competente. Já a dupla de apoio formada por Malu Rodrigues e Gabriel Leone, Wanderleia e Roberto Carlos respectivamente, são apáticos, pouco carismáticos e sem presença nenhuma em cena. Além de serem inexperientes para a relevância de seus papéis, foram mal escolhidos e dirigidos, afinal em quase todas as cenas parecem mais cosplayers dos artistas que representam, do que realmente a encarnação verdadeira dos cantores, como deveria ser. Outro ponto que não colabora com o desempenho dos atores são os diálogos, que são rasos, expositivos ao extremo e com inserções forçadas de gírias da época.

O roteiro em si também não é bom e parece levar o filme para lugar nenhum, mas é interessante ao focar na personalidade de Erasmo e em como esse rapaz com pouco talento e muita sorte pôde vencer no cenário da música nacional. Que inclusive não empolga o espectador aqui, muito porque os próprios atores não dublaram as músicas, mas sim emprestaram suas próprias vozes para as canções, que mesmo sendo um ato de coragem e doação pelo papel, o resultado musical é ruim. Contudo, é enriquecido com uma vasta quantidade de material de arquivo, ajudando a contextualizar os espectadores mais jovens.

 

“Minha Fama de Mau” é um recorte válido, porém mal finalizado sobre o início da carreira do Tremendão. Sofrendo ironicamente com falta de ritmo, ainda faz uma boa reconstrução de época em locações, no figurino e nos penteados, mesmo que a parte musical não esteja tão afinada.

 

NOTA: 2,0 / 5,0

 

Nathalie Alves
Nathalie Alves
Cinéfila, nerd e feminista irremediável. Ama games, HQs, comida, RPG, boardgames, podcast, literatura, música, séries...não necessariamente nessa ordem. Estudou letras e cinema na UFPE, e administração no IFPE, desenvolvendo diversas pesquisas e projetos de extensão sobre a representação e a representatividade da mulher na cultura pop. Assiste em média 15 filmes por semana, crê piamente em vida extraterrestre e que a Cate Blanchett e a Léa Seydoux com cabelo azul são a personificação da beleza.

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