O Filme da Minha Vida

Filme de Terror é Coisa de Menina
21 de abril de 2018
“Anne With An E”, melancolia e encanto (1ª Temporada)
15 de maio de 2018

“O Filme da Minha Vida” (2017)

rx online

O ano de 2017 parece ter sido de fartura para o cinema nacional. E um dos frutos dessa safra foi “O Filme da Minha Vida”, de Selton Mello. Produzido de maneira delicada, é uma obra poética que agrada aos olhos, ouvidos e a alma. Com uma belíssima fotografia assinada pelo já conhecido da praça, Walter Carvalho, somos encantadas com planos sequências simples e sutis, repletos de detalhes cênicos tão meticulosamente posicionados e combinados que juntos compõem uma direção de arte bastante sóbria carregada de tons ocre. Toda essa composição se torna ainda mais bela com a trilha sonora impecável e escolhida a dedo, que dá o toque poético final de cada cena.

Apesar de agradar aos olhos e render ótimos planos de fundo para a tela do seu computador, a fotografia abusa de planos médios e closes, parecendo muitas vezes quadros emoldurados. Cria-se mais do que a sensação de proximidade e intimidade, comum desses tipos de planos, mas também uma ideia excessiva de limitação. Mesmo com esse abuso de planos médios, é belíssima e encanta principalmente quando combinadas a uma trilha sonora ainda mais impecável, de maneira extremamente poética.

Baseado no livro “Um pai de cinema”, do chileno Antonio Skármeta, o longa acaba romantizando o abandono do lar e (atenção spoilers), o adultério. O longa deixa a desejar nesse ponto mantendo o ponto de vista de um filho que procura por um pai que some sem avisos por motivos “nobres” para manter a honra de duas mulheres. Apesar de o abandono injustificado ficar claro e ser ainda mais agravado pelo fato de o pai não estar tão longe quanto parece, é ignorado os sentimentos da mãe de Tony e esforço dela na criação do filho e no seu sofrimento diante do ocorrido. Tudo bem que Tony é o personagem principal, e o foco é na relação dele com a essa ausência inexplicada o pai, até aí tudo bem, mas nosso questionamento é: não dava para dar umas 4 ou 5 falas a mais para a personagem da mãe? Nem quando achávamos que finalmente ela teria seu momento de fala, a criatura abre a boca. Até Paco, personagem de Selton Mello, tem um monólogo existencialista longo sobre porcos, mas em nenhum momento temos a mãe em um lugar de fala que não seja pautada na visão da mulher eternamente apaixonada pelo marido disposta a perdoar tudo, que também é a mãe carinhosa e excelente dona de casa.

“O Filme da Minha Vida” (2017)

A falta dessa expressão de fala feminina não é exclusividade da mãe de Tony, apesar deste estar rodeado de diferentes mulheres importantes não apenas para ele, mas também para a construção narrativa da trama, a impressão que temos é que elas estão ali apenas para servirem as fantasias e emoções pseudo adolescentes de Tony. Claro que tudo sempre sendo tratado de maneira bastante delicada e sensível, com cenas belíssimas e intensas, com algumas até muito divertidas (vide as cenas no prostíbulo), contudo parece que a intensidade e profundidade dessas personagens femininas não são exploradas ao máximo. E isso conflita com atuação das atrizes que muito se destacam na obra.

As relações de Tony com os demais personagens, que não seu pai, são levemente frustrantes, precisamos dizer. Mas isso é compensado alguns diálogos repletos de frases de efeito que acabam nos conquistando. Lento, o filme demorou para prender nossa atenção, mas nos surpreendeu com sua beleza plástica e excelentes atuações.

 

NOTA: 4,5 / 5,0

 

Carolina Villa
Carolina Villa
Apaixonada pelo Homem-Aranha e tudo que o envolva. Mas ama mesmo assistir filmes e séries de ficção científica das antigas repletos de efeitos toscos. Quanto mais trash melhor! Graduada em Cinema e Audiovisual na UFPE, e Publicidade e Propaganda na FBV (PE), vive em um poliamor com essas duas áreas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

T.J. Hockenson Jersey