O Mundo Precisa de Steven Universo

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Steven, o protagonista da série animada

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O mundo anda parecendo um lugar cada vez mais frio e cruel. É um saco ir na internet e ler sobre mais um ato de violência, sobre mais um político tirando o direito à dignidade dos mais frágeis ou um primo defendendo preconceitos como se fosse opinião. É fácil perder o encantamento diante da avalanche de horrores que nos inunda todos os dias. No meio de tudo isso, “Steven Universo” (2013 – ) é uma pontinha de luz e aconchego.

A história do menino meio humano meio alienígena que mora em Beach City com três ‘crystal gems’, alienígenas como sua falecida mãe, e seu pai humano. Pode soar como só mais um esquecível desenho animado para crianças. Mas como acontece de tempos em tempos, um produto feito para entreter as mini pessoas supera em muito a expectativa e acaba se tornando ao mesmo tempo reflexo e luz do tempo em que vivemos. Steven é doce como poucos heróis, decidido a acreditar no outro mesmo sabendo que isso faz dele meio bobo e é em proteger e cuidar que mora sua maior força.

O desenho está cheio de pedacinhos da vida de sua criadora. Rebecca Sugar é a primeira mulher a desenvolver uma série animada para o canal Cartoon Network (!). A moça conta que o personagem título é inspirado em seu irmão, tendo até ganhado o mesmo nome que a inspiração. Bissexual, Rebecca fala com naturalidade de relações entre pessoas do mesmo gênero, sem nunca colocar mais do que seu público é capaz de assimilar. A moça também compõe grande parte das canções da série em seu ukelele. Instrumento que o próprio Steven toca na ficção.

Além do amor da Pérola pela Rose Quartz, outros temas bem sérios são colocados em cena de maneira lúdica e poética. Relacionamentos abusivos, racismo, feminismo, política, sexualidade… A fusão é frequentemente referida como algo especial e prazeroso que só deve ser feita com respeito, numa referência ao sexo ou um relacionamento. Assim, quando uma gem violenta obriga outra a fundir, o seriado traz temas maiores do que uma vilã querendo mais poder. Ou quando a elite das gems quase acaba com a vida na terra por nos considerar seres menores está se falando de muito mais do que de guerras intergaláticas e inimigos neon. Talvez tudo isso toque muito por fugir do simplismo mocinhos Vs. vilões. Lápis Lazuli ataca por ter sofrido por muito tempo, Pérola é maravilhosa, mas pode ser terrivelmente controladora e todas elas, cedo ou tarde dão ouvidos ao menino gordinho de chinelos que às vezes quase destrói a cidade por sua sobremesa favorita.

“Steven Universo” (2013 – )

Tecnicamente Steven Universo é um desenho bem simples. São cenários base que se repetem, personagens de traço simples e uma montagem que faz acontecer parte da ilusão de vida. Mas sua paleta de cores e o uso de luz cria uma atmosfera idílica. A ressignificação de elementos comuns e recorrentes agregam complexidade a cenas aparentemente simples e quando se soma a música e a dublagem alcançamos um encantamento raro na TV contemporânea. O trabalho dos dubladores originais é reconhecido por premiações especializadas, e é difícil imaginar os personagens sem o trabalho dessas pessoas. Até um dos grandes nomes da broadway, Patti LuPone já dublou uma gem. E ela é mesmo perfeita para a Yellow Diamond.

Animação é uma das paixões por aqui, e estamos vivendo uma época maravilhosa para a animação na TV. “Hora de Aventura” (2010 – 2018), “O Incrível Mundo de Gumball” (2011 – ), “Irmão do Jorel” (2014 – ), são só alguns exemplos de grandes animações para crianças dos últimos tempos. Mas Steven Universo, com sua doçura e perspicácia, talvez seja a mais necessária nesses tempos sem alma.      

 

NOTA: 5,0 / 5,0

 

Ingrid Xavier
Ingrid Xavier
Tem 8 ou 63 anos e precisa de séries para viver. Parece que também gosta muito de cinema, porque terminou uma graduação todinha em cinema e audiovisual. Mas teria terminado uma em música popular, se tivesse achado essa graduação. Chata por natureza. Não é nada pessoal.

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