Quando o silêncio fala: O Jardim das Palavras e o não dito

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A beleza da natureza em "O Jardim das Palavras"

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“O Jardim das Palavras” (2013) é uma animação japonesa que foge um pouco do padrão de drama e romance a que estamos acostumados. Dirigido por Makoto Shinkai, o filme arrebatou corações ao contar a história de Takao, aluno do ensino médio com tendências a matar aula em dias de chuva, e uma intrigante mulher, que vai ao parque beber cerveja e comer chocolate.

Em meio a incógnitas e diálogos íntimos, o filme respeita o silêncio necessário aos personagens. Melancólico e quieto, sempre que os personagens se encontram sob a chuva temos a sensação de tratar-se do único momento de respiro em suas vidas atribuladas. As batalhas internas são extravasadas através da chuva, no segundo infinito e ligeiro de convivência (quase terapêutica) entre ambos.

O filme fala através de símbolos e sentimentos, mais do que por diálogos. E essa é uma de suas melhores decisões, até o ponto de virada do roteiro. O grito desesperado que parece emanar do olhar dos protagonistas é intenso e dolorido, até finalmente transpor a barreira invisível que os confina em suas antigas cascas. O modo como a delicada construção dos personagens é feito rende bons frutos, e até o fato de observarmos um vaso com uma planta seca e morta sendo inundado pela água, que finalmente transborda depois de intensa chuva, nos dá a sensação de alívio.

As semelhanças e diferenças entre os personagens, que anseiam pelo momento de convívio, levam a conexão a mais uma particularidade: o futuro. Takao quer a vida adulta, enquanto Yukino, sem rumo, deseja voltar. Ambos se sentem perdidos e deslocados. Características tão próximas da nossa própria realidade, que nos atinge antes que possamos nos preparar.

Não se trata exatamente de uma história de amor romântico… é mais como um filme de aceitação, de compartilhamento. Sobre um amor diferente do que estamos acostumados, quase “platônico”, onde tudo que queremos é que o outro esteja bem. Aquele que surge da compreensão que pode nascer entre estranhos, quando nos permitimos ter empatia. Ou ainda o amor que divide, pega um pouco do outro e deixa um pouco de você.

“O Jardim das Palavras”

A arte é bela e transmite uma paz inquietante, ao mesmo tempo que desencadeia emoções torrenciais. Chama a atenção o pouco uso de trilha sonora, a maior parte da obra utiliza uma mixagem de som baseada em foleys, em detrimento de música, transmitindo uma delicada inocência.  Exuberante em detalhes extremamente realistas mesclados com o traço tradicional dos animes. A animação é cheia de vida, cor e fluidez. O concept dos personagens é bem trabalhado e rico, desde os momentos íntimos, em cena simples, até o desânimo da rotina e os pequenos momentos de alívio em seus dias. Quase é possível sentir o cheiro das árvores e o sabor da chuva banhando o rosto. Os movimentos de câmera são bem harmonizados com o conjunto da animação.

O filme é uma poesia visual, cuidadoso, calmo e com ar de novas chances. Novos horizontes após um momento de dificuldade, da conexão com a chuva. A beleza está na simplicidade da obra, algo como transpor a barreira de uma crise existencial, ou uma depressão.

A liberdade que o espectador tem para imaginar o ‘final’ da história pode incomodar algumas pessoas. Mas é bom lembrar que o desfecho não precisa necessariamente de algo absurdo ou arrebatador. A simplicidade de observar a arte de ser sapateiro, dos trabalhos manuais e únicos, ou da própria superação pessoal, podem resultar em finais tão imprevisíveis quanto o próprio rumo de nossas vidas. Assim como os rumos naturais dos personagens, algo raro em animações. Sair um pouco da caixinha ‘Disney/Pixar’ e companhia, dos finais irremediavelmente felizes, faz muito bem. Pode assistir com o coração aberto, não é todo dia que podemos ver a beleza das coisas simples desse modo.

 

NOTA: 4,0/ 5,0

 

Vitória Victor
Vitória Victor
Não sabe escrever sobre ela mesma, mas adora fazer e falar sobre animação. Estudou cinema e computação gráfica, mas podia ter estudado também veterinária. Cresceu assistindo a Disney, mas não virou princesa, prefere ser uma guerreira ou até a protagonista de um filme de Miyazaki. Dizem que se vira nas produções culturais, nas críticas, nas artes, no audiovisual e até na marcenaria. Com o espírito de uma digiescolhida, está sempre disposta a aprender e topa qualquer desafio.

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