Reflexões sobre um Arquivo não tão X assim

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Musings of a Cigarette Smoking Man

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Reflexões sobre um Arquivo não tão X assim – Divagações sobre Musings of a Cigarette Smoking Man

“A vida é como uma caixa de chocolates. Um presente barato, irrefletido e superficial pelo qual ninguém pediu. Não se pode devolver porque o que se recebe de volta é outra caixa de chocolates. Então, você se vê preso à essa porcaria indefinida de doces, que você devora sem pensar, quando não há mais nada para comer. É claro que de vez em quando aparece um recheado com pasta de amendoim ou um toffee inglês, mas eles acabam logo, e o gosto é fugaz. Você termina com nada mais do que pedaços quebrados de chocolates com nozes, que quebraram seus dentes, e se você estiver suficientemente desesperado para comê-los, tudo que lhe restará é uma caixa vazia cheia de inúteis papéis de embrulho.”

“Musings of a Cigarette Smoking Man” , sétimo episódio da quarta temporada de “Arquivo X” (1994-2018) termina assim bem “Forrest Gump” da amargura. A referência ao filme de Robert Zemeckis não foi a toa. Com  outras referências ao longa como a guerra do Vietnã, o assassinato de JFK, morte de Martin Luther King o roteiro deixa claro que a trajetória do Cigarette Smoking Man (ou ‘Cancer Man’ para os íntimos) é antônimo do personagem de Tom Hanks. Enquanto o segundo alcança o sucesso obedecendo a todos e sem pensar, Cancer Man tem fortes convicções e escreve com suas próprias mãos a história dos EUA. Entretanto, o que lhe é dado é só as sombras e a amargura de não ser reconhecido. Isso fica claro com o monólogo final. Quando Forrest fala da caixa de chocolates é como um universo de possibilidades desconhecidas, quando o Cancer Man fala é como um presente não desejado e que não pode ser devolvido, e que no fim nos deixa com a certeza do vazio e da tristeza.

O episódio não faz parte do cânone da série. Afinal, o que a gente vê é fruto da narração do Frohike, o amigo desajustado do protagonista desajustado. O próprio Chris Carter (showrunner da série) afirmou isso em entrevistas. Não se queria desmistificar de vez o personagem. Pelo amor da deusa, o Cancer Man sonha em ser autor de romances policiais e respeitar a opinião de editor de revista de literatura é muito absurdo. Como é absurda a carta de recusa da revista literária e todo o tom farsesco do episódio. Pula da morte de Mr King para quem deve ganhar o Oscar. E tudo cabe ao nosso amigo decidir.

“Musings…” deixa vazar detalhes interessantes de produção. Frohike devia ter morrido ali (seria todo o episódio um artifício para matar um coadjuvante? rs), mas por qualquer coisa de produção se desistiu desse rumo. Há quem diga que a morte do personagem foi até gravada, mas se perdeu entre o set e a sala de projeção. Fato é que ficamos com uma tocaia meio inútil no roteiro final. Apesar disso, o episódio traz elementos interessantes sobre o personagem: mesmo tendo uma repulsa pelo cigarro, associado a morte da sua mãe, ele fuma desde a primeira missão. Isso seria um indício que ele fuma de nervoso, mas também que seus ideais estão 100% sujeitos a vontade/necessidade do país. Tem também o fato dele afirmar que odeia cinema, mudar o discurso na  primeira missão e ser frequentemente visto no cinema. Não acredito que ele tenha mudado de opinião, mas que passou por cima de si por uma necessidade do personagem que interpreta junto ao estado norte americano.

Esse é daqueles episódios que agigantam o fandom, mas também que extrapolam a série e viram uma referência de televisão. É daquelas coisas que fazem a gente pensar sobre a real dimensão da cultura pop no mundo e na nossa vida. “Arquivo X” é cheio desses, assim como “Buffy”, “Mad Men”, “Lost”… E já estou ansiosa para continuar minhas divagações por onde houver uma uma TV (ou cinema) que vaze da tela.

Ingrid Xavier
Ingrid Xavier
Tem 8 ou 63 anos e precisa de séries para viver. Parece que também gosta muito de cinema, porque terminou uma graduação todinha em cinema e audiovisual. Mas teria terminado uma em música popular, se tivesse achado essa graduação. Chata por natureza. Não é nada pessoal.

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