Vingança: violência, sangue, exploitation e muito feminismo

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“Vingança” (Dir.: Coralie Fargeat, 2017)

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Mulheres violentadas sempre serviram de steps narrativos para jornadas heróicas masculinas em todos os suportes que a cultura pop enlaça, como livros, séries de tv, games, quadrinhos (inclusive a crítica que vos fala escreveu um trabalho sobre o papel da mulher na estrutura narrativa das histórias em quadrinhos) e principalmente no cinema. Na maioria dos casos essas figuras eram espancadas, estupradas e/ou mortas para que o herói pudesse vingá-la, enquanto que elas ficavam reclusas e deixadas em stand by à espera do retorno do seu único salvador possível.

Em tempos que o surgimento e consolidação de movimentos opositores à violência contra a mulher ganham força dentro de Hollywood, esses ideais estão também tomando as telas de cinema e se apropriando de subgêneros que na década de 70, por exemplo, eram majoritariamente masculinos e fetichista, como o exploitation. Cada vez mais o cinema produzido atualmente vem tentando quebrar as convenções sexistas relacionadas ao papel da mulher como personagem cinematográfico, e esse movimento tem encontrado refúgio exatamente em filmes dirigidos e roteirizados por mulheres, como é o caso de “Vingança” (Dir.: Coralie Fargeat, 2017).

No longa, três homens casados e ricos fazem anualmente uma espécie de caçada no deserto. Desta vez, um dos empresários decide trazer sua amante Jen (Matilda Lutz). Quando ela é abandonada para morrer devido a uma série de acontecimentos, eles terão que lidar com as consequências de uma mulher que busca vingança. A história é simples e objetiva, e a estrutura narrativa, que consiste basicamente em violência – sobrevivência – vingança, esconde detalhes que desviam a obra de clichês e a lança em um seleto grupo de rebuscamento visual e discurso subversivo, mesmo que o gatilho da motivação da protagonista ainda seja a partir de um estupro. Parece que não há nada que uma mulher tenha mais medo. Talvez realmente não haja. O estupro em si não é mostrado em tela, mas a criação da tensão que antecede o ato é sutilmente construída através de olhares, músicas, danças e cores (Ah, as cores).

 

O contraste sempre latente entre as cores rosa e azul.

 

As cores de Vingança são estonteantes e servem para criar sensações das mais diversas possíveis no decorrer da projeção, assim como é magistralmente concebido em “Demônio de Neon”(2016). Inicialmente, as cores quentes que reluzem e refletem dentro do quarto onde Jen e Richard (Kevin Janssens) se relacionam sexualmente estabelecem bem o clima sexual e carnal que há entre ambos. Logo depois é nítida a plasticidade e a evidencia no uso das cores rosa e azul na fotografia saturada de Robrecht Heyvaert. Aqui, as duas cores símbolo de feminilidade e masculinidade da sociedade contemporânea, respectivamente, são utilizadas para subverter os padrões e funções de gênero do ex-casal que agora briga para matar um ao outro. Em sequências de perseguição à Jen, Richard está em cena com um casaco azul (em outras cenas o casal também aparece usando azul para ele, e rosa para ela), e quando pelado (vulnerável e desprotegido) em uma das cenas finais, é observado por Jen através de uma parede de vidro na cor azul. Jen, por sua vez, sempre está com alguma roupa ou acessório rosa, como seus brincos comprados no camelô, a cor do seu esmalte, a blusa do pijama, o ipod, e o isqueiro. Assim como acontece com Richard, o papel de Jen também se inverte, e ela passa de mocinha indefesa e frágil, para uma quase super-heroína calculista e vingativa. Que mulher! A pouca roupa que Jennifer usa por todo o filme também chama atenção. Afinal mesmo vestindo somente calcinha e uma camiseta que logo vira farrapo, a personagem não é sexualizada, nem fragilizada. Pelo contrário. Parece que quanto mais sua roupa vai se rasgando devido aos percalços, mais ela se fortalece e sua vestimenta vai ganhando contornos e cortes de uniformes de super-heroínas dos quadrinhos da década de 70 e 80.   

Outro fator que é deveras irônico e que ajuda a compor a tensão narrativa do ambiente é a televisão da sala. No início do filme quando os 3 homens em uma festa na piscina disputam a atenção de Jen, a tevê da sala está transmitindo uma competição de luta, e pela manhã, quando as violências contra ela começam, é exibida uma corrida de fórmula 1. Em ambas as situações, os homens estão no controle, e a televisão corrobora com esse imaginário masculino. Quando Jen parece ter Richard nas mãos, a tevê exibe um canal de compras de joias, cujo público-alvo é o feminino.

Jen toda badass fazendo cosplay de Lara Croft

 

Esse sútil conjunto de cenas configuram-se como uma briga pelo comando (poder) do outro, personificado aqui pelo que é transmitido no aparelho, e quem tem o poder sobre ele costuma ser o detentor do controle remoto.

A montagem tem papel fundamental no dinamismo do longa, e já que a trilha sonora incidental é praticamente inexistente, ela se encarrega de criar uma inesperada musicalidade, como na cena em que os únicos 4 personagens visíveis no longa saem em uma corrida de perseguição a pé no deserto. A cena beira a genialidade com a montagem fazendo um jogo de cena com as imagens e a respiração dos personagens, cadenciando o ritmo particular de cada um, fazendo o espectador perceber o que cada personagem está pensando ou sentindo através do ritmo de suas passadas e da respiração. Em nenhum momento há um plano aberto nessa cena para que o espectador situe os elementos no espaço, mas é possível inferir o quão distantes os personagens estão um do outro. Magistral!

“A Vingança”, por pouco óbvio que possa parecer, não é apenas um filme de vingança física banhado de sangue, mas é sim uma utilização de artifícios e representações que historicamente pertenciam ao masculino, e que se comportam aqui como um ato de liberdade e insubordinação do machismo e suas ramificações. Violência gráfica e gore nada gratuitos, para mulheres verem e para os homens refletirem.  

 

NOTA: 4,0 / 5,0

Nathalie Alves
Nathalie Alves
Cinéfila, nerd e feminista irremediável. Ama games, HQs, comida, RPG, boardgames, podcast, literatura, música, séries...não necessariamente nessa ordem. Estudou letras e cinema na UFPE, e administração no IFPE, desenvolvendo diversas pesquisas e projetos de extensão sobre a representação e a representatividade da mulher na cultura pop. Assiste em média 15 filmes por semana, crê piamente em vida extraterrestre e que a Cate Blanchett e a Léa Seydoux com cabelo azul são a personificação da beleza.

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