Você curte, segue e stalkeia

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"Você"

rx online

Antes de você começar a ler este texto, sugerimos dar play na música abaixo para um melhor imersão na leitura.

 

https://www.youtube.com/watch?v=OMOGaugKpzs

(Every Breath You Take – The Police)

 

Se na série “Você” (2018 – Atualmente), Joe tivesse que fazer uma serenata para Beck, ele definitivamente cantaria Every Breath You Take do The Police. Não entendeu? A gente explica.

A primeira temporada da série conta como Joe se apaixona e fica obcecado por Beck, ao ponto de perseguir e espionar a vida dela, sendo capaz de cometer crimes para se manter próximo. A trama começa bem, com um bom ritmo nas apresentações dos personagens, deixando claro para uma ideia geral de como se comportam cada um deles. Mesmo que alguns venham a surpreender em certos momentos, fica claro a função narrativa de cada um ali.

Uma forma de aproximar o público do personagem foi a excelente utilização do recurso de narração off que tornam as justificativas de Joe menos explicativas, já que nesse caso esse recurso narrativo consegue ser dinâmico e prender a atenção do espectador. O que surpreende, visto que na maioria dos casos esse recurso é utilizado como uma forma preguiçosa de contar algo que está em cena. Em “Você” temos muitos momentos parece que o protagonista está conversando diretamente com a gente, como se estivesse explicando para nós suas ações, mas de maneira não muito óbvia.

 

Penn Badgley como Joe em “Você”

 

Infelizmente, a obra perde o ritmo antes mesmo da metade da temporada, e olhe que são apenas 10 episódios, e nem mesmo a montagem consegue manter esse dinamismo. A narrativa oscila pela instabilidade dos acontecimentos, tentando forçar o drama romântico em uma série que pede um tom mais misterioso, um suspense maior.

Os personagens que começam cativante, isso inclui o próprio Joe, vão transformando carisma em ranço a cada episódio, e nem o pequeno Paco se salva da chatice. Os personagens começam a cair em clichês e atuações caricatas à medida que a narrativa vai perdendo sua força.

Mas vamos falar do que mais nos incomodou nessa série. Assim como em “Os 13 Porquês” (2017 – Atualmente), a abordagem de uma temática importante (no caso a superexposição nas redes sociais), oscila entre o tom de aviso/alerta e a psicopatia justificada e bastante sexualizada. Sendo os acontecimentos mostrados pela ótica de Joe, há de certo modo a romantização do perseguidor através da falsa justificativa de que este ama Beck e só está em busca do seu melhor, deixando de lado como ele começou seu relacionamento com ela e tudo o que fez para se aproximar, desde stalkear Beck e manipular situações para que estas o favorecessem a cometer crimes. Controlador, ele julga Beck incapaz de tomar suas próprias decisões, e se acha no direito de direcionar e influenciar diretamente as escolhas delas. Isso só reafirma o discurso machista de que mulheres precisam ser protegidas, controladas e tratadas como seres indefesos e incapazes de decidirem o melhor para elas mesmas.

Joe está sempre por traz do papel do cara gentil, compreensivo, prestativo, o típico “cara bonzinho”, mas que não passa de um psicopata, e ele não é o único na série. Mas a questão é que mesmo o foco da série sendo a superexposição das pessoas nas redes sociais e como isso pode ser perigoso, o que se sobressai para alguns espectadores é de fato a relação de Beck e Joe, que além de não ser nem um pouco saudável (a começar pelo fato do cara ser um stalker louco), é sempre retratada a partir do ponto de vista de Joe. E mesmo com tudo isso ainda encontramos comentários na internet que questionam o comportamento de Beck no relacionamento, com pessoas dizendo que queriam um Joe para elas. Gente, oi?

Às vezes parece difícil entender como alguém pensa isso, mas a série faz questão de mostrar um cara charmoso, educado, e que fora o fato de ser um stalker violento, tem um bom coração, é fofo com o vizinho negligenciado, e é apaixonado em um nível de fazer qualquer coisa pela namorada. Por mais que o intuito fosse mostrar que caras legais nem sempre são tão legais assim, a obra cria uma abertura para uma interpretação romantizada e perigosa para esses tipos de comportamentos e relacionamentos onde tudo é justificável “em nome do amor” que se sente pelo outro.

Apesar de tudo, a mensagem da série fica clara: cuidado com o que você posta nas suas redes sociais, você pode até não ter um stalker, mas ainda pode ter os dados roubados ou algo do tipo. Você pode assistir todos os episódios da 1ª temporada na Netflix.

 

NOTA: 2,5 / 5,0

 

Carolina Villa
Carolina Villa
Apaixonada pelo Homem-Aranha e tudo que o envolva. Mas ama mesmo assistir filmes e séries de ficção científica das antigas repletos de efeitos toscos. Quanto mais trash melhor! Graduada em Cinema e Audiovisual na UFPE, e Publicidade e Propaganda na FBV (PE), vive em um poliamor com essas duas áreas.

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