Wynonna Earp, Fandom e Cultura LGBT

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Melanie Scrofano em “Wynonna Earp”

rx online

Uma mistura de “Buffy – A Caça Vampiros” (1996-2003) e “Supernatural” (2005 – atualmente) com filme de cowboy. Como eu adoro essa definição de “Wynonna Earp” (2016 – atualmente)! Talvez os únicos elementos dessas coisas que não tenha na série seja a pretensão e homem herói babaca. A história de Wynonna Earp, neta da lenda do velho oeste, Wyatt Earp, que herda do avô o dom e a maldição de matar demônios com a ajuda de uma arma com poderes especiais é bem mais do mesmo blábláblá, fantasia americana para vender blábláblá.

Mas pra começar, nem americana é. Produzida no Canadá, a série tem bem menos orçamento que um “Teenwolf” (2011-2017) da vida, o que traz uma única e maravilhosa vantagem: mais liberdade criativa. Traz umas desvantagens er… técnicas também, mas quem se importa, né? A sala de roteiristas de “Wynonna…” se permite ser irônica, ácida, non-sense e profundamente feminista e é aí está um dos grandes trunfos do seriado. Muito disso parece vir da showrunner. Emily Andras é uma figura divertida e sempre com um fora pronto, que vive no twitter e adora tacos.

Porém o maior de todos os trunfos seja mesmo Wayhaught. Esse é o nome de ship do casal lésbico formado por Waverly Earp, irmã de Wynonna, e a policial Nicole Haught. O relacionamento das mocinhas surge bem cedo na primeira temporada e, diferente de muitas obras do gênero, ele não fica nas entrelinhas. Pelo contrário, é bem óbvio e cheio de piadinhas sarcásticas. Não é uma série gay. Duas das personagens centrais, por acaso, são gays. E essa naturalização de uma relação homoafetiva dentro de um gênero já pré-estabelecido é sempre revigorante. “Imagine Eu e Você” (2005) que o diga. Talvez por isso mesmo a série tenha arrebatado tantas fãs lésbicas. Por todo o Tumblr e AO3, a tag do casal explodiu. Mesmo a série já indo para a 4 temporada esse fandom não dá sinais de enfraquecimento.

Dominique Provost-Chalkley e Katherine Barrell em “Wynonna Earp”

Você já deve ter reparado como eu estou falando das redes sociais nesse texto. É que a internet é parte da experiência de “Wynonna Earp”. Dos perfis da equipe aos perfis de peças do figurino (feitos por fãs), passando pelos diários online da agente Haught. Assistir ao seriado é também participar. A relação digital com quem faz a série é horizontal. Na medida do possível, o conteúdo gerado na internet às vezes transborda para a tela, e esse universo estético-cultural da série acaba sendo construído coletivamente. O que é rico e interessante mas tem seus lados ruins. Principalmente para a equipe. A pressão é grande e cada vírgula gera centenas de posts. E a internet definitivamente não é um lugar que perdoa.

Alguns anos atrás, os roteiristas de “The 100” (2014-atualmente) decidiram matar uma de suas personagens principais, e Emily Andras parabenizou a ousadia dos roteiristas no seu twitter. Lexa era o par romântico de outra mocinha, a Clark , e a morte foi a gota d’água para uma comunidade LGBT já cansada de ver personagens queer morrendo sem motivo aparente na televisão. Campanhas foram iniciadas, textos cheios de dados circularam, até uma convenção foi criada graças a esse movimento que mostrou para o mundo (ao menos para mundo da cultura pop adolescente gringa) que a tv estava banalizando a morte de LGBTs mais do que tudo, e se livrando desses personagens sempre que precisavam de um choro fácil. Claro que o apoio de Andras foi lembrado quando Wayhaught começou a ser trending recorrente. A showrunner já se retratou. Como essa que vos fala, ela disse não ter noção de que esse artifício narrativo estivesse sendo usado de forma tão danosa à comunidade.

Fato é que até hoje a moça é um ícone gay, sem ser gay. Não raro as expressões e piadas da série são adotadas por esse grupo. São códigos e imagens que só fazem sentido se você tiver o repertório específico. Outras vezes são as manias do público que vão parar na boca dos personagens. Esse tipo de troca não é nova, menos ainda na comunidade gay. Nas primeiras décadas do cinema, realizadores Queer colocavam expressões do nicho em suas obras. Assim, era possível falar sobre a vida gay de forma que só quem era gay entendia. E bem diante dos olhos dos censores. O que acontece em “Wynonna Earp” é uma versão contemporânea dessa codificação. Já não precisamos nos esconder, mas optamos por construir um universo estético particular que nos dá unidade para além de fronteiras geográficas.

Esse “shit show”, como Andras costuma brincar, não vai mudar a forma de se relacionar com a ficção pop na contemporaneidade, mas é antes de tudo um exemplo do que anda acontecendo por todos os lados. É uma subversão das barreiras e talvez o surgimento de uma espectatorialidade ativa (rs). Bem, a gente gosta pelo menos de acreditar nessa autonomia. Né, “Bandersnatch” (2018)?

Ingrid Xavier
Ingrid Xavier
Tem 8 ou 63 anos e precisa de séries para viver. Parece que também gosta muito de cinema, porque terminou uma graduação todinha em cinema e audiovisual. Mas teria terminado uma em música popular, se tivesse achado essa graduação. Chata por natureza. Não é nada pessoal.

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